Ontem tive uma sessão de terapia muito dolorosa. Há dias vinha me sentindo muito bem, o enjôo passou, a disposição melhorou. Voltei a trabalhar nas minhas ideias, a ter vontade de fazer, de reciclar a energia. E foi uma surpresa enorme pra mim, quando do nada, enquanto falava da minha melhora pro terapeuta, e era provocada (no bom sentido) com perguntas, o choro veio.

Não foi um chorinho. Foi um breakdown, na falta de palavra melhor, um micro-surto. Não deu nem pra continuar com a sessão. Voltei pra casa arrasada, cansada, como se tivesse levado uma surra (de certa forma levei). Não quis falar com ninguém, deitei e dormi, sem tomar banho mesmo, um sono de concreto, viga e pau. Pelo menos não teve pesadelo.

Hoje acordei meio tonta, meio cansada, ainda meio sem querer falar com ninguém, pensando que aquela sessão de ontem desgraçou o avanço dos últimos dias. A manhã foi passando e eu fui me tocando de que aquele momento na verdade foi mais do que necessário pra mim. Pela primeira vez, eu consegui olhar pra uma situação do passado, e imaginar um desfecho diferente.

Sabe quando vc discute com alguém, a pessoa te fala uma merda e no instante você fica sem reação, mas umas horas depois a resposta perfeita vem, e você termina a briga de outro jeito, no seu imaginário? Isso não muda o que passou, mas faz a gente se sentir melhor. E foi o exercício que eu fui convidada a fazer pelo meu terapeuta. Consegui revisitar aquela situação que ontem abriu a torneira, e aqui com meus botões, reagi diferente. Sem medo, sem vergonha, sem raiva.

Senti que não posso mudar o que passou, mas posso aprender a reagir melhor no futuro. E só essa perspectiva fez de mim uma pessoa livre, mesmo que por esse instante. Eu contei isso porque desde o meu último post, as coisas tem estado nesse vai e vem. Ao contrário do que muitos pensam, o tratamento de uma condição mental como a depressão, não é linear.

Uma melhora progressiva é esperada, mas existem muitas recaídas no processo. Eu tô bem, logo depois tô mal. Acredito que estou respondendo muito bem em alguns sentidos que fazem bem pra mim, como a disposição, o cuidado com o João, com a casa, a resposta mais positiva à gravidez, minha capacidade de sonhar e me imaginar bem por inteiro.

De outro lado, sinto que muitas válvulas de escape minhas estão meio descontroladas. Eu ando MUITO mal-humorada, implicante, raivosa. Tenho evitado conversar demais com os outros pra evitar confrontos, e toda hora fico cheia de vontade de falar umas verdades. As pessoas se apoderaram desse papinho de empatia pra não terem que assumir responsabilidade sobre as merdas que fazem, e isso me tira do sério. “Ah, mas fulana precisa que olhem pra ela com mais empatia”. Não, a fulana precisa mesmo é de uma boa dose de vergonha na cara e alguém que tenha coragem de dizer isso pra ela. “Ah, mas não pode corrigir ou humilhar quem escreve errado, porque nem todos tiveram as mesmas oportunidades”. Concordo, SE E APENAS SE a pessoa realmente não teve oportunidade. Isso não se aplica a vagabundo que tem preguiça de ler, estudar e que só quer se comunicar em internetês. Esses aí tem que corrigir mesmo, e se deixar pra mim, corrijo de palmatória ainda. (#prontofalei)

É um processo normal esse “desequilíbrio”, e a recomendação é a de utilizar a arte pra me ajudar a botar as coisas pra fora. Estou tentando, eu juro, mas sou um bocado impaciente, e me falta tempo, já que à noite estou cansada, e fim de semana é difícil ter uma folga do João. Mas quando dá, tenho redescoberto alguns pequenos prazeres, como a caligrafia, scrapbooking, colorir. Queria muito poder praticar artes marciais, mas estando grávida e tão sedentária, acho que não é uma boa ideia.

No fim das contas, me sinto fragilizada. Um olhar de fora, menos atento, dirá que estou 100%, mas é que eu sou difícil mesmo de dividir as coisas. Mas estou orgulhosa de estar caminhando. Tenho orgulho de estar ativa no mercado de trabalho, fazendo algo que eu descobri que gosto muito, ao mesmo tempo em que tenho a oportunidade de estar ao lado do João, acompanhando o crescimento dele de perto. Tenho orgulho de não ter desistido dos meus planos, ainda que tendo adiado alguns. Tenho orgulho de, a cada dia, conquistar uma pequena vitória, seja me cuidar um pouco, seja concluir a to-do list, seja baixar o nível da minha autocrítica. Tenho orgulho até mesmo de chegar ao fim do dia e concluir que aquele não foi um dia bom, quase nada foi feito, e tá tudo bem mesmo assim. Eu tenho ido dormir serena, e no balanço geral é isso que importa.