Resolvi escrever esse post depois de uma longa conversa com uma amiga. Depois que me tornei mãe e redefini os rumos da minha carreira, muita gente me procurou pra trocar uma ideia. Talvez, pelas minhas postagens, eu passe a impressão de que foi tudo muito fácil ou tranquilo, mas não foi nem perto disso.

Vejo um movimento muito forte de romantização do empreendedorismo materno, que acho muito prejudicial. Assim como também acho prejudicial o oposto, essa ideia de que temos que abdicar de tudo e ficar integralmente com os filhos pra ser mães.

Digamos que eu passei por todos os extremos. Mas como em tudo na vida, encontrei sentido na moderação. Na verdade, a resposta está em nós mesmas o tempo todo. Só quando nós somos inteiras e estamos bem é que conseguiremos ser a mãe que nossos filhos merecem. Mas sem dúvida, estamos sendo o melhor que podemos, integralmente.

Divido a minha jornada entre maternidade e carreira, não com objetivo de impor regras e dizer o que é certo ou errado. Quero apenas dividir mesmo, e quem sabe inspirar alguém que esteja em posição complicada.

Antes do João

Sou publicitária, com 11 anos de carreira. Já dividi algumas vezes insatisfações minhas com o mercado, e quando fiquei grávida do João, meu nível de insatisfação com a vida em agência estava no máximo.

João acabou sendo a coragem que eu nunca tinha tido pra planejar uma mudança. Eu queria correr daquele ambiente que me tornaria uma mãe ausente, não queria ser “menas” mãe, terceirizar a educação do meu filho porque passaria 10, 12h enfurnada num escritório.

Aproveitei uma onda de demissões onde eu trabalhava, e com medo de ser a próxima, propus um acordo, já depois de João ter nascido. A simples ideia de voltar pra rotina de antes me aterrorizava, e firmar esse acordo foi praticamente renascer pra mim.

Conversei com meu companheiro, que concordou que eu ficasse em casa e fosse mãe em tempo integral. A vida parecia bonita e simples, eu seria bela, recatada e do lar, e feliz pra sempre.

Hoje, percebo dois erros graves nesse plano: o primeiro, faltou um planejamento financeiro mais apurado. Meu acerto foi bom, e durou quase um ano, mas eu não soube usar bem o dinheiro. Quando nos vimos inteiramente dependentes de uma renda apenas, a coisa apertou bastante. Faltou planejar melhor, botar tudo na ponta do lápis e ajustar as contas da casa.

O segundo erro foi ter desconsiderado traços marcantes da minha personalidade. Ser apenas dona de casa por um momento foi tranquilo, mas a longo prazo nunca me faria uma pessoa plena, e eu não enxerguei isso. O tempo foi passando, e ser mãe em tempo integral começou a me sufocar.

Foi então que caí no conto da mãe empreendedora unicórnio, e vi na minha habilidade e paixão por cozinhar uma oportunidade.

Transição e mais erros

Sim, eu resolvi começar a fazer doces para vender. Proposta legal, hype, orgânicos, naturebas etc, nasceu a Doce Nostalgia. Por uns 4 ou 5 meses, eu planejava cardápios, divulgava, vendia pequenas quantidades uma vez por semana.

Custou muitas noites acordadas até 1h, pra 5h depois estar de pé. Custou muitas tardes de João chorando no meu pé, e eu chorando na beira do fogão. Custou muito, mesmo. Custou dinheiro que eu não tinha, tempo, desentendimentos diversos.

Mas eu vi de perto que empreendedorismo não é só uma ideia na cabeça e uma ferramenta na mão. Tem que planejar, investir, se ajustar. Não dá pra sobreviver vendendo 20 docinhos por semana, nem vendendo só pros seus amigos. Não dá pra fazer doce de forma decente com umas poucas panelinhas, um fogão meio capenga, a cozinha do dia a dia.

Eu insisti mesmo assim, e querendo provar pra mim mesma que eu conseguia, cometi o maior erro: fechei participação num evento grande. Não gosto nem de lembrar, meu Deus, quanto estresse. Gastei dinheiro, comprei um monte de coisa, estrutura pra montar banquinha, matéria-prima…

Depois disso eu dei o braço a torcer. Vender doce não foi uma má ideia, mas foi algo que fiz movida apenas pelo ímpeto de realizar algo, fugir da maternidade integral, sem querer voltar pra agência. Nesse momento, me vi sem dinheiro, sem saber o que fazer, imersa numa crise pessoal imensa.

A gente dá murro em ponta de faca, mas cresce

Resolvi me voltar para a minha formação, mas como exercer a parte que eu gostava da publicidade sem voltar pra agência? Eu sempre gostei bastante da produção de conteúdo, entrei no digital por essa porta, e a vida de blogueira sempre me ensinou bastante. Mas fui indo mais pro lado do planejamento e da gerência, e a produção de conteúdo se tornou algo que eu apenas delegava no trabalho.

Resolvi me arriscar. Muitos me criticaram por resolver voltar pra operação, por considerar que eu estaria “retrocedendo” na carreira. Mas eu nem liguei. Pedi indicações a alguns amigos, dei um tapa no Linked In e tentei.

Graças aos amigos maravilhosos que tenho, e que confiam no meu trabalho (e que sabem quem são!), consegui alguns freelas de produção de conteúdo. As entregas foram de boa qualidade e o cliente pareceu satisfeito em todas, e assim as coisas seguiram. Mas não foi mágico e instantâneo. Eu tive que me aperfeiçoar, estudar, investir.

Como tudo na vida, a produção de conteúdo é algo que eu sigo aprendendo. Eu também tive que passar pelo dilema que toda mãe passa mais cedo ou mais tarde: colocar na escola/contratar babá.

Talvez pelas experiências anteriores, e por esse dilema ter chegado pra mim quando João estava perto de completar um ano, a decisão não foi difícil. O que mais pesou foi o medo de não ter a estabilidade financeira necessária pra assumir um compromisso desse, mas ainda assim eu fui. Ter uma babá seria o único jeito de não ficar igual o zumbi da época da Doce Nostalgia, que queria fazer tudo sozinha.

Nesse período, em que eu também me descobri no meio de uma crise depressiva e com a descoberta de uma segunda gravidez, outra coisa foi essencial: querer ficar bem e procurar ajuda. Sempre bato muito nessa tecla com as pessoas mais próximas: se você sente que não está bem, procure ajuda profissional. Eu repito, foi essencial pra mim.

Sobre o futuro e as decisões de cada mãe

Depois de muito murro em ponta de faca e tentativas, me sinto feliz com o espaço que conquistei. Ontem mesmo alguém comentou que pensava em mudar de profissão, e que seria feliz trabalhando numa área x, diferente da atual. Pensei comigo mesma: “hoje, depois de muito tempo, eu não mudaria, porque sou feliz fazendo o que faço”. Claro, tenho projetos paralelos, mas os vejo mais como um complemento.

Meu trabalho é home office na maior parte do tempo, João tem uma babá ótima e amorosa e o tempo que passamos separados faz um bem danado pra nossa relação. Ainda assim, consigo acompanhá-lo de perto e estar presente nos momentos mais importantes. Perco algumas coisas, claro, mas eu desencanei de muita coisa da maternidade e me sinto segura com minha forma de ser mãe hoje.

Se eu ganho bem? É MUITO menos do que eu ganhava sendo gerente de planejamento. O orçamento da casa é apertado, mas vejo que ainda assim somos muito felizes. É aquela coisa do contrapeso, abrimos mão de muita coisa pra equilibrar as contas, conseguimos sobreviver de uma forma modesta, mas muito honesta com nossos valores.

Pra quando Luiza vier, precisaremos fazer ajustes e aumentar nossa renda, o que significa trabalhar mais, provavelmente. Mas um passo de cada vez. Eu tenho certeza que as coisas vão se ajustar e vou achar o meu caminho de novo. Agora, com mais segurança de por onde trilhar, me sinto mais decidida para fazer escolhas difíceis.

Como mulher e mãe, é muito fácil me vitimizar e não ser protagonista da minha história, mas isso é algo que felizmente eu tenho quebrado. A gente convive com culpa demais, e isso interfere muito nas decisões. Sim, tem muita injustiça, mas eu prefiro apenas lutar contra elas sem me lamentar o tempo todo.

De vez em quando, alguma amiga/mãe vem me perguntar o que eu acho que seja uma boa saída para os dilemas da carreira aliada à maternidade, e sinceramente, eu não acho que exista uma fórmula. Mas acho que deve haver um profundo respeito pelas vocações pessoais de cada uma, e ao momento vivido.

O que isso quer dizer? Apenas que você deve ouvir seu coração, e se entregar ao risco das suas escolhas. Se você quer ser mãe e dona de casa integral, apenas seja. Pare de ficar se lamentando pela carreira que você abandonou, e seja feliz. Se você quer botar na escola ou contratar uma babá porque sente que precisa investir na sua carreira, faça. E confie no seu amor pela sua cria, deixa a culpa vir, tomar um café mas manda ela embora depois.

É difícil, mas pode ser simples também.