“Amor de mãe é isso tudo mesmo?”, me perguntou uma amiga dia desses. Respondi ali na hora, com o que me veio à cabeça, mas de verdade, fiquei uns dois dias pensando sobre isso. E aí eu resolvi escrever um post.

Lá atrás, muito antes de engravidar, quando eu jurava pra mim mesma que nunca seria mãe, eu já não tinha lá uma visão muito romantizada da gravidez. Sempre achei meio retardada essa visão etérea que as pessoas tem de mulheres grávidas, sonsas e sempre entregues a um desejo absurdo de comida.

Descobri a gravidez numa situação completamente atípica e talvez até um pouco caótica, fora do que é considerado “ideal”: sem família, sem casamento, sem planejamento, sem desejo. Naquele momento eu tive a escolha, porque mesmo que ilegal, prosseguir ou não com uma gestação é uma escolha. E a minha foi cumprir a sina da barriga.

E eu encontrei apoio. Do pai do meu filho, das famílias envolvidas, dos amigos. Hoje eu acredito que talvez o conselho mais importante para a grávida é: “fortaleça a sua rede de apoio”. Porque apenas se sentir apoiada é o que vai nos acalmar nos momentos de pânico, que são muitos.

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O corpo vai mudar, a mente vai mudar. Rápida ou lentamente, a consciência de estar grávida se instaura. Na maior parte dos nove meses, a vida prossegue normalmente, e nada tem de romântica, a não ser que você queira poetizar os momentos. Eu sou muito prática pra isso.

Mas existe um determinado momento, que eu não sei precisar exatamente quando, que a gente se deixa levar. Fisiologicamente, mesmo que nos cause dor e sofrimentos físicos (ainda mais se você tiver problema de coluna), é bonito ver os mecanismos do corpo para enfrentar uma gravidez, e como tudo se ajusta tão engenhosamente. Hoje tenho muito orgulho pelo fato de ter permitido isso ao meu corpo. Me faz sentir forte, animal, parte da natureza.

Muito diferente daquela imagem de anjo de camisola esvoaçante, eu me sinto uma mulher completamente selvagem, uma leoa, porque o que move uma gravidez, mesmo nos momentos mais sensíveis, é a garra, é a força que encontramos em nós para seguir adiante e estarmos inteiras para mostrar a uma nova vida como viver.

O que eu sinto hoje é uma sensação de poder, de protagonismo, de total conexão com o meu corpo. Confio nos meus instintos, e se até agora trouxe tudo com tanta naturalidade, é dessa maneira que eu permaneço até o fim. Contudo, sem arrogâncias. Admitir sensibilidade, pedir ajuda, se cercar de carinho e cuidado fazem também parte desse protagonismo.

Isso tudo me leva de volta à pergunta da minha amiga, sobre o tal amor de mãe. Ela me perguntou se eu o amo acima de todas as coisas. Sim. Talvez só não mais do que amo meus gatos. Acho que amo igual, João e gatos. Quando penso na minha gravidez, penso mais em entrega do que em amor, ou talvez as duas sejam a mesma coisa.

Ao João, desde que escolhi tê-lo em minha vida, eu me entreguei completamente. Meu corpo e todas as vitaminas que nele circulam. Meu tempo livre, abdicando de outras atividades quando elas se tornaram um fardo pro meu corpo cansado e dolorido. Minhas emoções, ao colocar a vida e o bem-estar dele acima de qualquer relacionamento interpessoal meu.

É uma entrega que se prolongará por ainda muitos anos. Essa entrega me fez observar valores e comportamentos pessoais, e modificá-los para o que eu considero mais importante ao meu filho. É uma mistura confusa, de torná-lo mais importante que eu, sem contudo me anular. Porque mesmo com tanta entrega, é importante me manter íntegra.

Acredito, então, que engravidar seja isso. Conviver com a confusão, a dualidade, o caos. Ser forte para vencê-los. Ser serena para sorrir com eles. E se entregar o suficiente para descobrir sentimentos, enfrentar monstros e (re)encontrar um eu tão profundo e complexo que a gente nem sabia que existia. É cavar buracos na alma para desenterrar tesouros há muito perdidos.